Marraquexe - 1ª parte

Decidi encaixar uma ida a Marraquexe (Marrakech/Marrakesh) assim que comprei a passagem para Espanha, pois aproveitaria para conhecer o Deserto do Saara. Iniciei uma minuciosa pesquisa em blogs de mulheres que viajaram sozinhas para o destino supracitado e encontrei poucas no Brasil. É indubitável que as europeias são muito mais destemidas em seus mochilões.



Minha maior dúvida era acerca do comportamento masculino, num país muçulmano, com uma estrangeira viajando sozinha. Isto porque não queria ter preocupações nas férias. Li relatos contendo pavor, outros divertidos e encontrei mulheres que realmente gostaram e não tiveram muita dificuldade no percurso.

Tajines (ou tagines). Tajine é tanto a panela de barro quanto a comida feita com frango, passas, amêndoas...
Ao pesquisar as passagens, percebi que no período que viajaria os valores estavam muito acima do que normalmente é cobrado - depois descobri que era alta temporada na cidade. Para exemplificar, no site da ryanair, em um mês antes ou depois havia passagens por 29 euros (mas nunca seria minha opção, já que sai de uma cidade fora de Barcelona, Girona). Comprei a ida e volta no site da Ibéria e saiu a 200 euros (caríssimo, mas valeu cada centavo). É importante ressaltar que na ida pela Vueling e na volta pela Air Nostrum estava incluído bagagem de até 23 quilos (no site da Vueling, por exemplo, podia comprar numa tarifa inferior sem a franquia de bagagem).

No que diz respeito à hospedagem, queria ficar dentro da medina (cidade velha), para realmente vivenciar a cultura marroquina. Ressalto que a Medina de Marraquexe é considerada Patrimônio da Mundial da Humanidade, pela Unesco. Foi fundada em 1070-72 pelos Almorávidas (ermitão muçulmano) e permaneceu centro político, econômico e cultural por um longo período. Influenciou todo o mundo muçulmano ocidental, do norte da África e Andaluzia. Várias construções são datadas do mesmo período, como a Mesquita de Koutoubiya ou as próprias muralhas que cercam a medina. É um exemplo clássico de uma grande capital islâmica do mundo ocidental.

Escolhi um excelente riad (casas na medina, com poucos quartos, que se transformam em pequenos hoteis), Riad Noos Noos, localizado no Mellah, bairro judeu. O que mais me chamou atenção: minutos após minha reserva no booking recebi um e-mail com as informações do lugar, fato que jamais ocorreu anteriormente. 

O Laurent, francês dono do riad, me deu a opção de pedir o táxi do riad por 15 euros (para até 6 pessoas - quem disse que ser solo traveler é vantajoso?) - topei imediatamente. Tinha lido que os táxis são baratos, mas depende de negociação e dificilmente ligam o taxímetro, e ainda, sem alguém que conheça a medina é impossível se localizar - verdade absoluta. A outra opção é o ônibus do aeroporto, que cobra centavos, e é preparado para receber malas e bem novinho, mas passar fora da medida. É uma boa opção para quem está de mochila e sabe exatamente onde vai ficar. 

No deserto conheci duas meninas que pagaram 5 dihram (moeda local) pelo táxi, algo como 50 centavos de euro! Mas elas estavam há duas semanas em solo marroquino e conheciam um cidadão que deu todas as dicas. É comum encontrar pessoas que viajaram por várias cidades daquele país, seja Meknès, Agadir Tanger, Casablanca, Fez, Essaouira, Rabat.
Dirham
A língua oficial do Marrocos é o árabe e o berbere (falada principalmente no deserto e nas montanhas Atlas e Rif ), mas a maioria da população fala francês. As placas são escritas nos dois idiomas sempre. Nem pense que encontrará algo em inglês, todavia, a maioria dos vendedores falam qualquer idioma nos souks (mercados).

Assim que cheguei no aeroporto Menara fui ao banheiro e me deparei com algo super incômodo naquela cidade: mesmo em restaurantes ou museus o banheiro terá um preço estipulado ou uma senhora pedindo alguma moeda.


Depois aguardei uma lenta e longa fila na imigração, com tanto tempo de espera, minha mala estava na esteira. Troquei apenas 50 euros por 500 dirham para não chegar na cidade sem qualquer moeda local. Fui procurar o taxista com a placa e seguimos para o riad. Ouvi o taxista, que falava uns 6 idiomas, informando ao Laurent que em 7 minutos estaria na medina.

Os carros não entram na maioria das ruas da medina, pois são muito estreitas e ainda tem os mercados que colocam os produtos na rua. Lá estava o dono do riad para me receber e me levar. Meu coração estava acelerado ao pisar nas ruas de Marraquexe, tudo muito novo e também familiar naquela confusão e sol intenso. Ele foi caminhando, me disse para andar sempre no canto, pois existem muitas motos e é um milagre sair de lá com vida, e olhar cada ponto com atenção, para depois conseguir caminhar sozinha.
 
O Palais de la Bahia



A porta do souk das especiarias
Bairro Mellah, a rua do riad é antes dos recipientes laranjas à esquerda.
A rua do riad
Ao chegar, me serviu um chá de menta, me deu a chave da porta da casa, o cartão do riad e um mapa. Meu maior desespero: embora hipoteticamente as ruas tenham nome, como visto no google maps, não existem placas, portanto, para se localizar é necessário a memorização do percurso. No meu caso, marquei um lugar bem conhecido, o Palais de la Bahia, pois ficava na porta de entrada do souk das especiarias, e decorei: uma reta e viro à esquerda, outra reta e viro à esquerda e entro na rua à esquerda e localizo o quarto portão à direita (risos). É um verdadeiro labirinto!

Para não dizer que não existe informação na medina, encontrei algumas setas indicando alguns lugares, como o Palais de la Bahia, o Museé Dar si Said, a Place Jemaa El Fna - que ajuda muito para quem está em cegueira plena.

Pedi ainda que agendasse um passeio ao deserto, havia pedido por e-mail, mas tentou me convencer do contrário, que deveria apenas fazer um daytour para uma região próxima, pois para chegar ao deserto são necessárias 8 horas. No entanto, fui decidida a passar meu aniversário no Deserto do Saara.

Depois de me instalar no confortável quarto do riad, tomei um banho e parti para a rua (no dia seguinte seguiria para o deserto), pois a maioria das atrações fecham às 16h e olhei no relógio que marcava 15h.
Riad
 
Riad
Ao colocar os pés na rua tive a sensação mais estranha do mundo: só via homens nas ruas e todos olhavam para mim. Vi grupos de turistas mulheres e mulheres acompanhadas por homens, mas nenhuma outra turista mulher sozinha. Percebi que sequer olham para uma mulher acompanhada e, para duas ou mais mulheres, não insistem tanto.
Poucas mulheres nas ruas. Cobertas e não falam com os turistas.
No caminho, parei para conversar com Abdul, jovem e simpático vendedor que me parou todas as vezes que passei para seguir ou sair do riad. Portanto, é necessário filtrar aqueles que são desagradáveis daqueles que querem apenas mostrar o produto e saber de onde você vem. A gente tem que chegar num lugar com uma cultura tão distinta com o coração aberto.

Entrei no Palais de la Bahia (significa "magnífico") para apreciar a arquitetura no estilo árabe, construído no final do século XIX. A entrada custa 10 dirham. São aproximadamente 8 mil metros de jardins.









Depois segui para o Museu Dar Si Said, também conhecido como "museu de artes marroquinhas", ingresso a 10 dirham. Foi o único momento que me senti intimidada, numa ruela me deparei com um "corredor polonês" de homens que falaram coisas que não entendi, mas segui adiante, mesmo querendo correr! E um deles me perseguiu, querendo conversar. hahahha






Marraquexe recebe milhares de turistas diariamente e perceberá assim que colocar os pés na rua. Vi dentro do palácio uma mulher trajando top e short super curtos, mas não é um caso isolado, muitas turistas vão com roupas curtíssimas, no entanto, todas devidamente acompanhadas ou em excursões.



Faminta. Decidi entrar no restaurante indicado pelo riad: Un dejeuner à Marrakech. A comida que pedi estava excelente. Me serviram um peixe com passas, cebolas e especiarias com um arroz decorado com purê de tomate e tomei um suco de laranja. Custou 108 dihram. O lugar é aconchegante e foi o mais confortável dos restaurantes que comi. Muito próximo fica o outro indicado, mas que não visitei: Le Marrakchi.


Para não dizer que não comprei nada, entrei em uma loja e adquiri dois camelos para minha sobrinha e um narguilé (shisha) para minha mãe. Em Marraquexe, a maioria dos produtos expostos nos souks não têm preço. O vendedor dirá um valor absurdo para ver a sua reação. Diante da negativa, perguntará quanto quer pagar. É preciso ter alguma habilidade. No caso do shisha, por exemplo, o vendedor pediu 50 euros. Disse que era absurdo e que tinha 10 euros. Me vendeu por 14 euros. Todavia, tenho certeza que teria comprado outras coisas se o preço fosse fixo. Isto porque, quando damos um preço muito baixo alguns vendedores se irritam. Haja paciência! Risos. Estou quase me acostumando, uma vez que negociava até o valor da água de coco na Tailândia.
  
Shisha
Finalmente cheguei no centro nevrálgico de Marrakech: a praça Jemaa El Fna (ou Djemaa el Fna). Significa a praça dos mortos, pois antigamente a cabeça dos criminosos eram expostas naquele ponto. É uma loucura: você encontra encantadores de cobras, tatuadoras de henna, barracas de suco de laranja, artesanatos, antigos vendedores de água que cobram por fotos. Não caí em nenhuma cilada, pois já tinha lido acerca dos "golpes". Uma menina me contou que a tatuadora pegou a mão dela e desenhou sem seu consentimento, cobrando, posteriormente, 20 euros!!!


Antigo vendedor de água
 




As mulheres marroquinas, em Marraquexe, cobrem o corpo e a cabeça.



Na praça, corri para tomar os deliciosos sucos de laranja por 4 dirham (40 centavos de euro!). Aparentemente são feitos com água mineral. Entrei num restaurante e sentei na varanda para tomar um sorvete e apreciar o movimento e fiquei até 19:40h, antes do anoitecer, pois no dia seguinte teria que acordar muito cedo.

Passei numa casa de câmbio e troquei dinheiro, comprei uma garrafa de água para o tour do dia seguinte e voltei para o riad, admito que precisei perguntar em alguns momentos como chegava até o Palais de la Bahia. Entrar no riad depois de um dia tão agitado foi como ver um oásis no deserto.
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